Uma memorável assombração

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Eu tentava gritar e pedir por socorro, mas minha voz não saía, vinha feito o grunhido agudo e alto de um bicho ferido, aliás, é como se tivessem matando o bicho e é como se esse bicho fosse eu. Diziam-me que não tinha o direito à palavra. Insisti. Enquanto houver boca, olho e ouvido existe e resiste a palavra. Danaram-se todos. Foi quando arrancaram minha língua e aí eu só conseguia emitir os sons que vinham das vísceras, o choro, a latência da dor. Pronto, agora é que não conseguiam me entender mesmo, eu feito uma pateta fazendo mímica, peguei o sangue que jorrava da boca e escrevia nas paredes, escrevia coisas de dor, de solidão, de esquecimento. E por um acaso eles liam? Ficavam era repetindo ‘você é louca’, euzinha, estarrecida por não haver uma alma que queira ouvir sobre

a lucidez do que eu sinto dentro. Fiquei em silêncio ou se danariam comigo mais uma vez e serrariam meus braços e minhas pernas. Tirem-me a voz, mas não o meu direito de ir embora. Nessa hora, só os meus olhos diziam, meu Deus, e já fazia bastante tempo que eles só diziam o sofrimento de não ser. O espanto sempre escorre face abaixo.

Chegou, enfim, o dia em que eu definitivamente viraria um fantasma. Mas não qualquer um; em verdade, uma memorável assombração.

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Criador e criatura

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Maurits Cornelis Escher

Deus não prenunciou o apocalipse bíblico, com uma besta flamejante, sete trombetas e duas testemunhas. Ele sempre soube que sua criação acabaria sozinha consigo mesma (e com todo o resto) hora ou outra. Afinal, é isso que significa ser humano, só a gente que não percebeu ainda. Eis a grande revelação, grandes feras de sete cabeças.

Sinais de pontuação

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Jenny Holzer

Era tudo exclamação. Frases inteiras, cheias de significado e significação. Não existiam reticências – vez ou outra uma vírgula, deixando a voz em suspenso, mas logo a frase se completava e, depois dela, colocávamos uma exclamação.

Foi quando o travesso travessão apareceu e atravancou a continuidade do período. Ficou um hiato, um vazio. Veio ponto e vírgula, interrogação. Um medo irracional do ponto final. Quando acaba a história, o vazio obscuro se torna imensidão. O amor que jorra pelos poros não sabe lidar com pontos finais. Mesmo quando troca as mãos pelas pernas nas regras de pontuação.

Servus Servorum

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Tarsila do Amaral

Eu acordo, respondo meia dúzia de mensagens no celular, durmo mais 10 minutos, depois tomo banho, café de cápsula, leio o jornal e vou caminhando até o ponto de ônibus sem pensar no que estou fazendo, como uma máquina programada para exercer as mesmas atividades todos os dias. Aí eu chego no trabalho atrasada, levo esporro da chefia, sento em frente ao computador e respiro fundo, porque é assim que se sobrevive no cárcere do sistema. Respiro fundo e prendo a respiração por oito segundos, coisa que aprendi no Yoga, e fico encarando a tela branca com a descrença de um ateu. Para que(m) serve isso?

Mais tarde chego em casa, com o peso do mundo nas costas, já pensando nos relatórios de amanhã, como um negócio congelado, tomo uma cerveja e fumo a minha erva, que é mesmo para dissociar, desfazer-me das cargas horárias e obrigações que me enervam. Afinal não posso largar o emprego porque tenho que pagar o aluguel, manter o carro, comprar meu cigarro, comer e desperdiçar aos montes, trocar o iPhone – enfim, alimentar os supérfluos vícios de consumo, tão naturalizados.

Acontece que já tá caindo a ficha de que esse sistema adoecido também adoece e tira pessoas de seus rumos, as faz perder suas vidas dentro de cubículos com paredes brancas e quadros pós-modernistas. Milhares por ano gastos com remédios para dor de estômago, para dormir, para não ficar com as mãos tremendo, porque, sim, mais assustador para mim é estar presa na roda viva do labor de Casa Grande.

Mais de 7 bilhões de pessoas coexistindo no (nosso) mundo. Grande parte delas vivem a mesma rotina. A vida, em sua mais vívida significação, virou commodity. Para estar vivo e sentir-se vivo, é preciso cessar o ciclo da frustração e impotência e repensar os modos de existir. Para que servimos? A quem servimos? A uma engrenagem esquizofrênica que trabalha com um jogo de troca injusto, dizendo que, para ser merecedor de algo, é preciso dar suor, sangue e noites em claro? Ou ao que de fato é a sua essência constitucional, permeada por energia vital e sede de liberdade?

Seria tão difícil assim se despir das máscaras e poses e enfrentar a si mesmo, do avesso, em frente ao espelho? Assusta ver osso, carne, vísceras e sangue com os olhos bem abertos, principalmente em uma sociedade em que vivemos olhando para baixo, ao invés de olhar para o lado, ao redor? É complicado se ver fora da engrenagem? Ora, tem horas em que é preciso se encaixar. Noutras, desconjuntar-se.

 

A dor do outro

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Henri Matisse

É muita presunção isso de as pessoas afirmarem que é possível sentir a dor do outro. Do outro singular, do outro imaterial. Dor não é algo que se compartilha. A punção no peito é um momento de solidão – não solitude. É hora grave, de pequena morte. De plena desconstrução. É muita pesporrência dizer que entende a mágoa do outro. Mágoa é coisa trancafiada no plexo, não tem cara, não tem padrão. É doença crônica. Isquemia mesentérica. Arritmia cardíaca. Completa disfunção.

Nada

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Yayoi Kusama

Cidadã do mundo, andando pelos cantos escuros, viajei por anos, sozinha, eu e todos os meus egos fragmentados, na vã esperança de que encontrar algo que me trouxesse ao menos uma mínima sensação de pertencimento. Cavalguei pelas florestas como um templário. Rastejei pelos pântanos, matei crocodilos com minhas próprias mãos. Andei descalço pela neve, que escalpelou meus pés. Cruzei um deserto sedenta de verdades. E as tão complexas perguntas continuaram sem respostas.

Até que um dia, despretensiosamente, esbarrei com um monge em uma rua velha, suja. Como quem tem uma ânsia de vômito, me apressei: “Ao que pertenço?”, perguntei, exasperada. “A nada”, disse o monge, com um sorriso estampado na cara.

Livrai-nos de nós mesmos

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Mark Ryden

Mark Ryden

Fico me perguntando enquanto lavo os pratos: meu Deus, que mais há de acontecer? As filas do supermercado estão enormes, os motoristas se agridem, as pessoas vagam pelas ruas com olhares vazios e estáticos. Como se fossem olhos de vidro, sem brilho algum. Os sorrisos amarelados só aparecem para serem fotografados. Relações se tornaram trocas de favores. A insatisfação deixou de ser exceção. As pessoas estão aprisionadas sem entender que nasceram para ser livres. Livres do mundo, dos outros, de si mesmas. O que somos transcende nossos corpos putrefatos. Somos mais que espaço e tempo. Somos mais espírito que carne. Meu Deus, como a vida nos limita.