Criador e criatura

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Maurits Cornelis Escher

Deus não prenunciou o apocalipse bíblico, com uma besta flamejante, sete trombetas e duas testemunhas. Ele sempre soube que sua criação acabaria sozinha consigo mesma (e com todo o resto) hora ou outra. Afinal, é isso que significa ser humano, só a gente que não percebeu ainda. Eis a grande revelação, grandes feras de sete cabeças.

Sinais de pontuação

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Jenny Holzer

Era tudo exclamação. Frases inteiras, cheias de significado e significação. Não existiam reticências – vez ou outra uma vírgula, deixando a voz em suspenso, mas logo a frase se completava e, depois dela, colocávamos uma exclamação.

Foi quando o travesso travessão apareceu e atravancou a continuidade do período. Ficou um hiato, um vazio. Veio ponto e vírgula, interrogação. Um medo irracional do ponto final. Quando acaba a história, o vazio obscuro se torna imensidão. O amor que jorra pelos poros não sabe lidar com pontos finais. Mesmo quando troca as mãos pelas pernas nas regras de pontuação.

Servus Servorum

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Tarsila do Amaral

Eu acordo, respondo meia dúzia de mensagens no celular, durmo mais 10 minutos, depois tomo banho, café de cápsula, leio o jornal e vou caminhando até o ponto de ônibus sem pensar no que estou fazendo, como uma máquina programada para exercer as mesmas atividades todos os dias. Aí eu chego no trabalho atrasada, levo esporro da chefia, sento em frente ao computador e respiro fundo, porque é assim que se sobrevive no cárcere do sistema. Respiro fundo e prendo a respiração por oito segundos, coisa que aprendi no Yoga, e fico encarando a tela branca com a descrença de um ateu. Para que(m) serve isso?

Mais tarde chego em casa, com o peso do mundo nas costas, já pensando nos relatórios de amanhã, como um negócio congelado, tomo uma cerveja e fumo a minha erva, que é mesmo para dissociar, desfazer-me das cargas horárias e obrigações que me enervam. Afinal não posso largar o emprego porque tenho que pagar o aluguel, manter o carro, comprar meu cigarro, comer e desperdiçar aos montes, trocar o iPhone – enfim, alimentar os supérfluos vícios de consumo, tão naturalizados.

Acontece que já tá caindo a ficha de que esse sistema adoecido também adoece e tira pessoas de seus rumos, as faz perder suas vidas dentro de cubículos com paredes brancas e quadros pós-modernistas. Milhares por ano gastos com remédios para dor de estômago, para dormir, para não ficar com as mãos tremendo, porque, sim, mais assustador para mim é estar presa na roda viva do labor de Casa Grande.

Mais de 7 bilhões de pessoas coexistindo no (nosso) mundo. Grande parte delas vivem a mesma rotina. A vida, em sua mais vívida significação, virou commodity. Para estar vivo e sentir-se vivo, é preciso cessar o ciclo da frustração e impotência e repensar os modos de existir. Para que servimos? A quem servimos? A uma engrenagem esquizofrênica que trabalha com um jogo de troca injusto, dizendo que, para ser merecedor de algo, é preciso dar suor, sangue e noites em claro? Ou ao que de fato é a sua essência constitucional, permeada por energia vital e sede de liberdade?

Seria tão difícil assim se despir das máscaras e poses e enfrentar a si mesmo, do avesso, em frente ao espelho? Assusta ver osso, carne, vísceras e sangue com os olhos bem abertos, principalmente em uma sociedade em que vivemos olhando para baixo, ao invés de olhar para o lado, ao redor? É complicado se ver fora da engrenagem? Ora, tem horas em que é preciso se encaixar. Noutras, desconjuntar-se.

 

A dor do outro

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Henri Matisse

É muita presunção isso de as pessoas afirmarem que é possível sentir a dor do outro. Do outro singular, do outro imaterial. Dor não é algo que se compartilha. A punção no peito é um momento de solidão – não solitude. É hora grave, de pequena morte. De plena desconstrução. É muita pesporrência dizer que entende a mágoa do outro. Mágoa é coisa trancafiada no plexo, não tem cara, não tem padrão. É doença crônica. Isquemia mesentérica. Arritmia cardíaca. Completa disfunção.

Nada

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Yayoi Kusama

Cidadã do mundo, andando pelos cantos escuros, viajei por anos, sozinha, eu e todos os meus egos fragmentados, na vã esperança de que encontrar algo que me trouxesse ao menos uma mínima sensação de pertencimento. Cavalguei pelas florestas como um templário. Rastejei pelos pântanos, matei crocodilos com minhas próprias mãos. Andei descalço pela neve, que escalpelou meus pés. Cruzei um deserto sedenta de verdades. E as tão complexas perguntas continuaram sem respostas.

Até que um dia, despretensiosamente, esbarrei com um monge em uma rua velha, suja. Como quem tem uma ânsia de vômito, me apressei: “Ao que pertenço?”, perguntei, exasperada. “A nada”, disse o monge, com um sorriso estampado na cara.

Livrai-nos de nós mesmos

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Mark Ryden

Mark Ryden

Fico me perguntando enquanto lavo os pratos: meu Deus, que mais há de acontecer? As filas do supermercado estão enormes, os motoristas se agridem, as pessoas vagam pelas ruas com olhares vazios e estáticos. Como se fossem olhos de vidro, sem brilho algum. Os sorrisos amarelados só aparecem para serem fotografados. Relações se tornaram trocas de favores. A insatisfação deixou de ser exceção. As pessoas estão aprisionadas sem entender que nasceram para ser livres. Livres do mundo, dos outros, de si mesmas. O que somos transcende nossos corpos putrefatos. Somos mais que espaço e tempo. Somos mais espírito que carne. Meu Deus, como a vida nos limita.

Mea culpa

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Nasci em um lar tipicamente cristão. Daqueles em que o ódio e a intolerância deixam de existir apenas aos domingos – e claro, na Páscoa e Natal. E ah, sem me esquecer da culpa. Poucas coisas conseguem ser tão cruéis quanto a culpa incutida por um lar de adoradores de Cristo. “Deus tá vendo”, “você vai para o inferno”, “Ele morreu por você”, “isso é pecado”. Desde miúdo, sempre me senti diminuído diante do grande genitor e ceifador de vidas. Dez mandamentos e uma regra: ser um bom samaritano. Ou pelo menos parecer um bom samaritano.

Cresci temendo – no pior sentido da palavra – o Deus do Velho Testamento. Para mim era narcisista, cheio de rancor e ira. Mandava matarem em seu nome, fazia chover sapos e gafanhotos nas pobres pessoas, destruía cidades. Resistia em acreditar que um Deus pudesse ser assim em sua essência; um grande abuso de autoridade. Tinha medo por que ele me vigiava na missa, na escola, no banheiro e até em meus pensamentos. Sempre estive muito certo de que iria para o inferno, sem escalas.

Depois, já moço, conheci um Deus mais misericordioso pela imagem de Jesus Cristo. Comecei a pensar que o Deus do Velho Testamento se apercebeu inapto para o cargo e resolveu terceirizar o serviço. Mesmo assim, a culpa não passava. Já estava naturalizada, enraizada dentro de mim. Veio a depressão e a horrível sensação de viver de migalhas, sabendo-me não merecedor do que eu tinha e do que eu era. “Graças a Deus”, “Ele foi fraco, o diabo que o influenciou a fazer isso!”. Não existe auto-responsabilidade nessa história? Ou ela só opera no lado negativo? Tem que ver isso aí.

Disse tudo isso para chegar ao seguinte ponto: será que só é possível se sentir livre e verdadeiramente encorajado a viver em um mundo sem Deus? É tão difícil assim ver-se vivo aqui e agora em um ciclo de sofrimento que só pode ser cessado por força própria, sem terceirizados? Fica a questão.

– Por hoje acabamos.

– Obrigado, P. Toma aqui o dessa sessão. Nos vemos quinta que vem.