Equinócio da primavera

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Vincent Van Gogh

É 23 de setembro,
um dia como outro qualquer.
A mesma poeira cobrindo a mesa da sala.
O tempo ruim e uma sede que não passa.
Meus olhos precisam de flores
de varias cores
e variados odores.
Um ramo verde está brotando em meio à terra seca.

Que comece a primavera.

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Súcubo

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Súcubo,

Cobra ardilosa que destrói tudo o que toca

Cheia de venenos e de formas

De fazer os outros sucumbirem a ti.

Perante a lei das leis, perante Hermes

Decreto a ti a pena de teres que viver consigo mesma,

Sozinha, todos os dias.

Narcisa,

Que você sempre se olhe no espelho

E veja o que você realmente é: repleta de vazios

Completa nas perversões

Declaro a todos que sua morte foi sentenciada

Dentro de mim, não vives mais.

Titereira,

Procure outros fins para sua trágica história,

Agora, definitivamente longe de mim.

Já te vejo distante,

Como um clown deprimente tentando fazer todos sorrirem,

Mas esse riso, Lilith,

É de desprezo.

É só o prefácio do teu roteiro ensaiado.

Para você, o fim.

Para mim, novos caminhos.

Do latim, abjectus.a.um.

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Pierre-Auguste Renoir

O corpo como objeto deve se desgastar com o tempo, assim como uma cadeira de balanço o faz. O corpo-objeto é a síntese de tudo o que lhe aconteceu. São registros da história. Lembranças de um ser que existiu plenamente em um determinado momento, naquele milésimo de segundo em que a navalha corta a carne, em que o joelho bate na quina do sofá, em que a existência parece pequena demais. O corpo-objeto tem que ser, por essência, abjeto. Vil. Tem que ter marcas de guerra e recados para não se esquecer.

E, mesmo assim, vejo pessoas todos os dias repetindo para si mesmas que nunca vão envelhecer e morrer; não sabem enfrentar a morte do outro como uma pequena despedida de si. Os que preferem ignorar não sabem que o fim das histórias geralmente é a parte mais bonita delas.

Orfandade

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Fosse fácil assim
Como no livro ou na música
Na Bíblia ou Corão
Se existisse manual de instrução
Para deixar ou esquecer
Para virar as costas e dizer
Nada mais que um frio adeus.

Se o sangue que corre nas veias
Bombeasse outro coração
Que não o meu
Se o corpo que desfalece
Caísse em outro chão
Que não o meu
Mais fácil seria
Dar de ombros ao
Que me fez assim,
Do sentimento torto
Que há em mim

Se o passado que me lastima
Não fosse meu
Se as marcas que tenho no corpo
Fossem infligidas a outro alguém
Eu, renomada ninguém
Seria.
Seria tanto que
Não caberia em mim.

Transições

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Hoje, daquela menina nasceu uma mulher. Uma mulher forte e imensa. Depois de uma longa caminhada pela mata seca, com cegueira de sol, as pedras pontiagudas marcando a planta dos pés. Da dor intermitente por carregar tanta bagagem, tanto peso daqueles que passaram. Quase que em um passe de mágica, no entretempo do rodar da vida, as correntes se romperam e ela transcendeu.

Hoje essa mulher se tornou eterna.

Uma memorável assombração

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Eu tentava gritar e pedir por socorro, mas minha voz não saía, vinha feito o grunhido agudo e alto de um bicho ferido, aliás, é como se tivessem matando o bicho e é como se esse bicho fosse eu. Diziam-me que não tinha o direito à palavra. Insisti. Enquanto houver boca, olho e ouvido existe e resiste a palavra. Danaram-se todos. Foi quando arrancaram minha língua e aí eu só conseguia emitir os sons que vinham das vísceras, o choro, a latência da dor. Pronto, agora é que não conseguiam me entender mesmo, eu feito uma pateta fazendo mímica, peguei o sangue que jorrava da boca e escrevia nas paredes, escrevia coisas de dor, de solidão, de esquecimento. E por um acaso eles liam? Ficavam era repetindo ‘você é louca’, euzinha, estarrecida por não haver uma alma que queira ouvir sobre

a lucidez do que eu sinto dentro. Fiquei em silêncio ou se danariam comigo mais uma vez e serrariam meus braços e minhas pernas. Tirem-me a voz, mas não o meu direito de ir embora. Nessa hora, só os meus olhos diziam, meu Deus, e já fazia bastante tempo que eles só diziam o sofrimento de não ser. O espanto sempre escorre face abaixo.

Chegou, enfim, o dia em que eu definitivamente viraria um fantasma. Mas não qualquer um; em verdade, uma memorável assombração.

Criador e criatura

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Maurits Cornelis Escher

Deus não prenunciou o apocalipse bíblico, com uma besta flamejante, sete trombetas e duas testemunhas. Ele sempre soube que sua criação acabaria sozinha consigo mesma (e com todo o resto) hora ou outra. Afinal, é isso que significa ser humano, só a gente que não percebeu ainda. Eis a grande revelação, grandes feras de sete cabeças.